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Digital e Relacional

Digital killed relationships?

Notas sobre o impacto das plataformas digitais nas relações interpessoais

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Marta Rebelo

Consultora de Saúde Mental · Conselho Consultivo do Livro Verde Desafios Relacionais da Transição Digital

Jun 20265 min de leitura

As plataformas digitais não mataram as relações, mas transformaram a sua quantidade, qualidade e forma. Marta Rebelo, do conselho consultivo do Livro Verde, reflete sobre como o digital reconfigura a textura dos nossos laços.

As plataformas digitais têm um impacto profundo nas relações interpessoais: se por um lado o digital aproxima, anulando a distância geográfica e facilitando o acesso e a comunicação com os outros, por outro altera a textura das nossas relações. Digital didn't kill relationships, mas conforma a quantidade, a qualidade e a forma das relações.

Quantidade: interações vs. relações

Grande quantidade de interações, criação de novas relações limitada

As plataformas digitais têm um efeito expansivo da nossa rede social, dando-nos uma escala e um potencial de contacto ímpares através da hiperconectividade.

Mas, tendencialmente, o que aumenta são as interações: laços digitais fracos, superficiais, intermediados por ecrãs, algoritmos e inteligência artificial, e não a quantidade de relações, de laços analógicos efetivos. Este potencial expansivo da nossa rede entra em dissonância com a capacidade limitada do cérebro de manter relações estáveis: o estimado Número de Dunbar, de cerca de 150 pessoas. É o Paradoxo de Dunbar: do confronto entre o digital e a neurologia resulta um aumento dos contactos superficiais, mantendo-se pequeno o núcleo de relações significativas.

Qualidade: conectividade vs. conexão

Pertença real ou solidão digital

A curadoria da realidade que medeia as interações digitais altera a perceção de nós próprios (inadequação, autoimagem e valor próprio) e dos outros, promovendo o isolamento por comparação. Fenómenos como o phubbing, expressão que junta phone e snubbing e que é o ato de ignorar quem está fisicamente connosco em favor do ecrã do smartphone, prejudicam a qualidade da atenção e a ligação empática presencial.

Assim, se por um lado as plataformas digitais facilitam a pertença, o apoio e a validação de pessoas com interesses, identidades e desafios específicos (doenças raras, hobbies particulares, entre outros), que se sentem isoladas na sua geografia e encontram digitalmente a sua comunidade de nicho, por outro criam um falso sentimento de pertença gerador de solidão, através do contacto digital contínuo, mas estéril, sem contacto físico, presença real e corregulação emocional.

Forma: novas formas de comunicar

Assincronicidade

Permite maior flexibilidade e reflexão na resposta, mas diminui a autenticidade e cria ou aumenta a ansiedade da espera.

Ausência de comunicação não-verbal

Dificulta a compreensão da mensagem e aumenta a dissonância, mas levou à criação de novas linguagens visuais: emojis, GIFs, áudios e memes.

Relações de consumo rápido

A forma de iniciar e terminar relações alterou-se, pelo aumento da liquidez e da descartabilidade. Dinâmicas como o ghosting (desaparecer sem justificação) e o uso de matching apps fast-foodizaram a procura de parceiros e amigos, criando uma sensação permanente de que a próxima opção pode ser melhor.

Menor capacidade de pensamento crítico

A comunicação digital é rápida, fragmentada e superficial, ativando o sistema impulsivo do cérebro e alterando a nossa capacidade de desenvolver pensamento crítico, que exige tempo, silêncio e esforço cognitivo. Esta menor capacidade crítica leva à externalização da verdade e à vulnerabilidade à desinformação: o que é verdadeiro ou falso passa a validar-se através de likes e influenciadores digitais.

Gera-se, então, um efeito de ciclo: o isolamento digital deixa-nos mais vulneráveis a procurar pertença em grupos radicais; a arquitetura das plataformas promove a polarização nesses grupos; e a perda de pensamento crítico impede-nos de ver as falhas desse discurso, quebrando pontes com o resto da sociedade.

Em suma

As plataformas digitais democratizaram o acesso aos outros (quantidade) e criaram novas linguagens de proximidade (forma), mas exigem um esforço muito maior de atenção e de presença consciente para criar e manter relações, e não meras interações (qualidade).

Ainda há espaço e tempo para agir sobre os impactos negativos nas relações interpessoais e potenciar os efeitos positivos. É a esta tarefa que nos propomos, no processo de criação do Livro Verde.

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Autor

Marta Rebelo

Consultora de Saúde Mental · Conselho Consultivo do Livro Verde Desafios Relacionais da Transição Digital

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